No último final de semana fui convidado para acompanhar o Creamfields
Festival, de Liverpool, um dos maiores festivais de dance music do
mundo, que ganhará uma edição brazuca em 2011.
Por enquanto, não há muito mais
informações além de que a edição
nacional do Creamfields acontecerá no sul no dia 22 de Janeiro
e que ele vem aí com o objetivo de se tornar "o festival
do verão brasileiro".
Enquanto a gente espera mais novidades, segue abaixo uma resenha
exclusiva para o Blog Burn da minha experiência lá na gringa.
TUDO AO MESMO TEMPO AGORA: O SEGREDO DE UM BOM FESTIVAL
Para quem já foi à alguma festa na Fazenda Maeda (SP)
ou em Santo Aleixo (RJ), a primeira impressão do festival
inglês Creamfields não causa espanto. É o mesmo
cenário de sempre: gramados extensos, cenografia burlesca e
aquele clima bucólico das festas open air. Só um pouco
mais frio... e com muito mais lama (as galochas literalmente
são acessórios obrigatórios).
As semelhanças acabam por aí. A começar pelos
números do festival: 80 mil pessoas por dia divididas em dois
dias. Um palco open air e onze tendas. Mais de 160
atrações. Como se não bastasse, contei pelo menos
seis brinquedos de parque de diversões, três lojinhas de
merchandising com camisas, casacos e até calcinhas do festival
(!), além de mais de uma dúzia de barracas com comidas
de várias nacionalidades. Isto sem contar as lojinhas curiosas
como um caminhão com estúdio de tatuagem e um lounge de
luz negra que vendia... oxigênio! Sim, cinco minutos de
oxigênio, com aromas de diversos tipos, por aproximadamente
quinze reais (ou cinco libras).
A imensidão das opções do festival só
não competia de frente com o poder de seu line-up. No final de
semana quase todos os peso-pesados da e-music estavam lá. Dos
mais comerciais ( David Guetta, Deadmau5 e Calvin
Harris ), à santíssima trindade do trance
(Tiësto, Ferry Costern e Armin Van Buuren), passando pela nova
geracão da house music ( Swedish
House Mafia, Dirty South e Laidback
Luke ), o techno minimalista alemão ( Magda, Plastikman aka Richie Hawtin e Sven Väth ),
lendas "locais" ( Sasha, Leftfield e Pete Tong
) ou novos heróis da cena de dubstep inglesa ( Benga,
Rusko, Annie Mac e Joker ).
Em resumo, era um festival "de verdade". Daqueles que
você não escolhe o que vai ver, e sim o que vai ter que
sacrificar. Cabiam aos artistas - literalmente - se virar nos trinta.
Qualquer escolha errada de uma música era fatal: a
migração em massa era inevitável.
O DUBSTEP É A BOLA DA VEZ EM UK
Deixe que pensem, que digam, que falem... Por mais que nenhum evento
no Brasil tenha a iniciativa de investir em seus artistas, o
gênero que nasceu no Reino Unido, por volta de 2004, chegou
finalmente em seu auge.
É comum ouvir nas lojas de roupas da Oxford Street, em
Londres, as batidas quebradas e os baixos gravíssimos em
remixes de músicas pop como "I
Got a Feeling". Aliás, surpreendente foi ver David
Guetta tocar techno, electro e não enfiar um hit atrás
de outro. O atual DJ mais pop do mundo arriscou um dubstep que fez a
galera jogar as mãos de um lado pro outro, quase como que num
mega-show de hip hop. Deadmau5 foi outro. O ratinho que estampava 9 em
cada 10 camisas mais vendidas do festival saiu de trás de seu
cubo de led para quebrar tudo com beats quebrados fazendo a alegria da inglesada.
Por isso, talvez um dos maiores destaque do festival foi mesmo a
tenda que reuniu a galera do UK Bass. Andy C
e o MC Dynamite me
fizeram dançar drum 'n' bass como não fazia desde 2002.
O Major Lazer de Diplo colocou a tenda abaixo com um show que qualquer
equipe de som do Rio contrataria na hora: pura sacanagem, funk
pancadão e house fanfarrão. Mas o nome da pista foi
mesmo o britânico Rusko (que recentemente produziu Britney
Spears e M.I.A. ).
Animadíssimo e performático, pegava no microfone,
cantava e brincava com a galera, fazendo aquilo que poucos DJs
conseguiram: prender todo mundo que entrava na tenda durante o seu set.
QUE PRESSÃO É ESTA, HEIN?
Outra figura que causou no festival: Eric
Prydz. Inédito no Brasil e dono de hits que já
viraram clássicos das pistas, tocou um remix de Zombie Nation
com aquela base do funk que fez a pista inteira cantar junto:
"que pressão é esta, hein?" (eles ficavam
só no oh-oh-oh-wou).
Já a "Máfia Sueca" de Steve
Angello, Sebastian Ingrosso e Axwell... No
quesito "popular", foi "a" atração
mais estourada do festival. Na mesma hora que se apresentavam, tocava
na pista ao lado Sven Väth. No palco, Tiësto. E numa tenda
mais distante, o lendário grupo inglês Leftfield.
Não teve pra ninguém. Eram 10 mil pessoas dentro da
pista, mais umas duas mil do lado de fora pressionando os
seguranças, tentando de qualquer forma entrar. Coisa de louco.
Falando em loucura, triste foi ver uma das mais esperadas
atrações do festival, o live do
"anglo-canadense-quase-alemão" Richie Hawtin falhar.
A tecnologia do Plastikman se virou contra seu criador. Duas falhas na
energia seguidas de uma desistência. Uma decepção
que só não foi maior que o set da sua pupila Magda (e
quem disse que minimal é som de festival?)
A REGRA É CLARA: NÃO SE LEVE A SÉRIO
Por mais que rolasse uma concentração absurda de gente
bonita e interessante no mesmo espaço, o clima de
pegação praticamente não existia. Se
alguém esbarrava em você na pista, imediatamente pedia desculpa.
As fantasias rolavam solta, e este foi um dos grandes diferenciais do
festival. A regra era simplesmente não se levar a sério.
De Oompa Loompas a marinheiros, de Astronautas a Legos ambulantes, o
que o povo queria mesmo era se divertir, chamar a
atenção e tirar fotos. Mas tudo no maior respeito,
simpatia e clima de curtição.
Para minha surpresa, todas as tendas, em todos os momentos, estavam
minimamente animadas com gente dançando ritmos às vezes
bizarros para nós, como o hard trance da tenda Go Dutch! e suas
músicas de 175 bpm. Em outras tendas mais
"tranquilas", as pessoas cantavam juntos as músicas,
havia (pelo menos parecia haver) uma certa educação
musical que raramente se vê - ainda - por aqui. A
"disputada" área VIP ficava tão escondida, que
foi uma das poucas pistas que simplesmente não vi.
Gentileza, educação e muitos sorrisos no ar. Pode
parecer exagero, mas este festival ganhou uma menção
honrosa no quesito "boa vibe". Quem frequenta, sabe.
É aquela sensação de saudade, de querer mais, de
se sentir acabado após 10 horas de pista e ainda assim se pegar
pensando: "...mas já passou mesmo?"
Quem sabe ano que vem? Estou desde já na torcida para que o
festival daqui dê certo. Enquanto isto, começam os
preparativos para a edição de Buenos Aires em
novembro...Em breve, mais infos aqui no blog Burn.
Fotos: Divulgação, Site Oficial do festival
Enviado por FrankCK